Na manhã do último sábado, 24/7, a Secretaria Municipal de Cultura de Campos do Jordão começava um expediente especial: ali estavam mais de 100 crianças e professores da rede pública de ensino da cidade, acompanhados de seus familiares para assistir às duas apresentações de música que encerravam as atividades do projeto de educação musical oferecido pelo Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, entre os dias 12 e 23 de julho deste ano. [veja as fotos]
Às 9h30, o evento começou com uma emocionante apresentação de fotos, uma retrospectiva das atividades que envolveram todos os participantes do curso nos últimos 15 dias. A professora de música Teca Alencar de Brito, coordenadora do projeto [assista aqui à entrevista feita com ela no início do curso] fez um discurso na abertura do evento, ao lado da Prefeita da cidade, Ana Cristina Machado Cesar, e da Secretária Municipal de Cultura, Flavia Centofante. Todas agradeceram pela iniciativa do projeto e se comprometeram a tentar fazer com que ele continue.
Como uma espécie de teatro musical, a apresentação seguiu o roteiro do livro que serviu de base para o curso: Quantas músicas tem a Música? ou Algo estranho no Museu!, de autoria de Teca. Imitando estátuas, os alunos da turma que se apresentou primeiro faziam de conta que eram instrumentos musicais aposentados,expostos em um museu, que nem sabiam qual era o som que podiam fazer. A partir daí, cada instrumentista começava a mostrar o som de seu instrumento, provocando a plateia e os próprios alunos participantes com improvisos, jogos de sons, percussão corporal, canto e até dança.
Participaram da primeira apresentação os alunos das seis turmas que faziam o curso no período da manhã. Às 11h30, começou a segunda apresentação, com os alunos do curso do período da tarde. Ao final das apresentações, os participantes do curso de formação em educação musical para professores da rede pública se juntaram aos alunos para um momento apoteótico: com danças circulares no palco e fora dele, professores e crianças cantavam e festejavam ao som de uma música de origem hebraica.
Wesley de Melo Nascimento, professor de duas escolas da rede pública municipal de Campos do Jordão, acredita que o curso terá um papel importante para o trabalho que ele desenvolve no seu dia-a-dia. “Mudou muito a mentalidade. Entender o jeito como a criança pensa, isso vai mudar muito nas minhas aulas, me ajuda a ver como a criança cria pra gente criar junto, trabalhar junto”, avalia o professor, que já estudou violoncelo em Conservatório e acha que é preciso facilitar o acesso ao estudo de música. “Eu sempre tive dificuldade para estudar música e vai ser bom as crianças terem esse incentivo”, afirma.
Paulo Romário, 14 anos, participou das atividades na turma de adolescentes. Para ele, foi uma experiência muito especial. Ele mora na Casa Abrigo II de Campos do Jordão e, junto com mais dois companheiros de abrigamento, participou dessas atividades diferentes nessas férias. “Foi interessante conhecer instrumentos novos, como esses indígenas que eles trouxeram”, conta ele, dizendo que ficou com vontade de voltar a ter aulas de violão depois dessa experiência.
Não só para os moradores da Casa Abrigo, mas para diversas crianças que vieram de regiões mais periféricas da cidade, o curso foi uma forma de garantir um direito fundamental: o acesso à cultura e ao lazer, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. É o que garante Tione de Melo Neto, integrante do Conselho Tutelar de Campos do Jordão,que acompanhou as atividades do dia 24.
“Eu trouxe algumas crianças do meu bairro, Jardim Montecarlo, porque achei muito interessante. As crianças que participaram do projeto são bem carentes, necessitam desse tipo de projeto. Acho que isso vai trazer um aprendizado muito grande, porque vão ter mais conhecimento ligado à música, que é muito importante para esses adolescentes. Para os da Casa Abrigo, traz também informações e orientações, que são coisas importantes para eles”, afirma o Conselheiro.
A neta de Tione, Jéssica Carolina, 8 anos, também participou das atividades. “Eu adorei. Gostei das atividades de fazer música com o corpo”, descreve, contando das aulas de percussão corporal. E ela garante: quer estudar música e já pede para o avô para estudar violão.
Jéssica Carolina, Paulo Romário e as dezenas de crianças participantes pareciam não querer ir embora. O clima era de despedida, de fim de acampamento de férias, de choradeira e muitos abraços com os professores, com apelo para que atividades como essa aconteçam mais vezes.
O curso
Sob a coordenação da professora Teca Alencar, do Departamento de Música da Universidade de São Paulo, uma equipe de professores e estagiários (estudantes de música da USP) ofereceu formação em ensino de música para estudantes e professores da rede pública local. Cerca de 60 professores de 14 escolas municipais e uma estadual participaram de oficinas de formação diariamente, de 12 a 23 de julho, das 9h às 13h, totalizando uma carga horária de 40 horas. Ao mesmo tempo, mais de 250 crianças da comunidade jordanense participaram de um conjunto de atividades integradas de iniciação musical, divididas em turmas nos períodos da manhã e da tarde. Todas as atividades foram realizadas em prédio da Secretaria Municipal de Cultura, custeadas por parte da renda obtida com a bilheteria do Festival.
Os professores participantes das oficinas também ganharam um incentivo para ter contato com a programação artística do Festival. O evento disponibilizou ingressos para eles assistirem gratuitamente a 12 apresentações no Auditório Claudio Santoro, com a intenção de promover maior contato desses docentes com o repertório musical nacional e internacional que esses concertos trazem para Campos do Jordão.
O violinista francês Gilles Apap, artista convidado do Festival para quatro apresentações e duas master classes, também interagiu com o projeto. Na tarde do dia 22/07, ele fez uma visita ao projeto e, com seu violino, interagiu com as crianças e, seguindo seu estilo, tocou algumas músicas improvisando com a turma [veja aqui a repercussão dessa visita na imprensa].
Promovendo também ações de formação de público em geral, com o oferecimento de ingressos a R$ 5 em oito apresentações do Festival no Auditório Claudio Santoro para moradores da cidade de Campos do Jordão, a Santa Marcelina Cultura estuda possibilidades de ampliar ainda mais esse legado de ensino musical para a região, dialogando com as instituições locais para fazer com que a música do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão esteja presente na cidade em períodos diferentes do mês de julho, que coincide com a alta temporada da região.
Texto: Cristina Uchôa
Fotos: Jeff Dias / Agência F8
Palavras-chave: responsabilidade social, musicalização infantil, teca alencar brito, educação musical, casa das crianças
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